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segunda-feira, 27 de julho de 2015

O peão passado distante - um tipo especial de peão passado



Hoje iremos discutir um pouco sobre um personagem muito importante nos finais, o peão passado. Para fundamentar nossa discussão, consideraremos três tipos especiais de peões passados:  o peão-passado distante, o peão-passado protegido, e os peões-passados unidos.
Paro o momento, focalizemos nossa atenção nos peões-passados distantes, que costumam ser mais notados em finais de jogo, quando restam poucas peças no tabuleiro. Como exemplo podemos visualizar no diagrama abaixo, no qual o peão branco em a2 é um peão passado distante, pois está mais afastado dos os peões bloqueados em f4 e f5 que o peão preto em c4. As brancas vencem muito facilmente jogando 1. a4 Rd5, 2.a5 Rc5, 3.a6 Rb6, 4.Rxc4, e segue sem maiores dificuldades.




A vantagem do peão passado distante fica a qui muito clara. O seu avanço força o rei Negro abandonar a defesa dos seus peões sob ataque do rei Branco.

No meio do jogo, é evidente, torna-se muito mais difícil obter sucesso na utilização do peão-passado distante, mas mesmo assim, ainda existem algumas possibilidades em lançar mão desse recurso. Pode por exemplo, ajudar a prender algumas peças adversárias nas bordas do tabuleiro e assim facilitar um ataque em outra parte do tabuleiro, ou mesmo, pode ser possível a partir de uma simplificação, transpor para um final vantajoso como mostrado acima. A partida exemplo apresentada a seguir, dá uma ideia mais clara da influência exercida no jogo por um peão passado distante. Vejamos então:


FLOHR x ROMANOWSKI
(Moscou - 1935)


As Brancas tem um peão passado em a5, mas que não pode ser avançado facilmente, entretanto, sua presença obriga as Negras a manterem pelo menos uma de suas peças permanentemente afastada do centro, em uma posição em que exerce pouca força. Enquanto isso, o cavalo Branco que bloqueia o peão passado Negro em c6, encontra-se muito bem posicionado em c5.

28. ... Cc7. Com este lance, as Negras querem antes de mais nada, tentar trocar a torre Branca na sétima fileira. A partida prossegue: 29. h3 - Cb5, 30. Tb7 - Cd6, 31. Tb2 - Cb5, 32. Td2 - f5, 33. f3 - fxe4. Ajudando seu oponente, pois no final do jogo, são as Brancas que devem se esforçar para abrir o jogo na ala do Rei. Melhor teria sido 33. ... f4. 

34. fxe4 - Cg6, 35. Dg4 - Rh7. A partir de agora, as Brancas lutam para chegar rapidamente ao final do jogo com o mínimo de peças. E continua com 36. T2c2 - De7, 37. Tf1 - Tf8, 38. De6 - Dxe6, 39. Cxe6 - Txf1, 40. Rxf1 - Te8, 41. Cc4 - Ta8, 42. a6 - Rg8, 43. Ta2 Cf8.

Até agora, o peão ainda não pode ser forçado adiante. Primeiro é necessário que as torres restantes sejam trocadas. As Brancas conseguem isso, forçando o cavalo em f8 de volta para g6, permitindo sua torre penetrar na coluna da dama, se posicionando na sétima fileira. Então as Negras aceitam a troca sem hesitar.

44. Bf2 - Rf7, 45. Bg3 - Cg6, 46. Td2 - Ta7, 47. Td7+ - Txd7, 48. Cxd7 - Re6, 49. Cc5+ - Rd6, 50. Bf2 - Cc7. 

Este lance, facilita o trabalho das Brancas consideravelmente. Mais forte seria 50. ... Nb5 após o qual as Brancas devem tentar conduzir o cavalo de sua forte posição através de 51. Rf1, seguido de Be3, Rf2 e Rf3.

51. g3 - Ca1

Posição após o lance 51. ... Ca1
A conclusão realmente pertence a um livro de fim de jogo, mas ainda é um exemplo muito esclarecedor do tema da conversão de um peão-passado distante em vantagem decisiva em uma partida. As Brancas ameaçam avançar o peão e, assim, atrai as Negras a iniciarem uma ação para capturá-lo; o peão acaba por ser realmente capturado, mas as Negras descobrem que o preço será muito alto.

52. Rg2 - Ce7, 53.Rf3 - g6, 54. Cd3 - Cc8, 55. Bc5+ 

Nesse momento o bispo assume o papel de bloqueador, permitindo assim que o cavalo prepare um ataque contra os peões inimigos em e5 e g6.

55. .... Re6, 56. Cb2

O dever de ficar constantemente vigiando o peão Branco em a6 limitou as peças Negras para a inatividade, como resultado, eles não estão em posição de lidar com as intenções das Brancas. A ameaça imediata é 57. Cc4 seguido de Ca5 e (depois o forçado 58. ... Rd7) 59. Bf8. Então 58. ... h5 seguido por g4 permite ao Rei Branco chegar entre os fracos peões Negros.

56. ... Rd6

A tentativa de despistar a manobra acima permite a simplificação decisiva:

57. Bxd6 - Rxd6, 58. Cc4+ - Rc5

Se 58. Re6, o Rei Branco marcha para a ala da dama; então após a7 ele ocupa posição sobre b7 para forçar o avanço do peão. As Negras preferem eliminar o arqui-inimigo, mesmo que isso vá lhe custar a perda de dois peões.

59. Cxe5 - Rb6, 60. Cxg6 - Rxa6

Agora são as Negras que possuem um peão-passado distante em c6, mas devido a superioridade material e posicional das Brancas, isto não tem mais nenhuma importância.

61.e5Rb7
62.Re4Rc7
63.Rf5Rd7
64.e6+Re8
65.Ce5c5
66.Cd7c4
67.Cf6+Rf8
68.Cd5Rg7
69.Re4abandonam

Em outros posts trataremos sobre os outros tipos especiais de peões passados.


Texto traduzido e adaptado do livro PACKMAN'S MODERN CHESS STRATEGY de Ludek Pachman, 1963.

quinta-feira, 23 de julho de 2015


O que eu deveria jogar em meu próximo lance?


Esta é com certeza uma questão difícil de responder para qualquer um de nós. E existem diferentes abordagens que podem ser mostrar úteis em diferentes cenários para nos ajudar a fazer a nossa melhor escolha. Dentre as possibilidades existentes, poderíamos utilizar: a memória, os princípios gerais, identificação de padrões, leitura da linguagem corporal do seu oponente, ou até mesmo, recebendo ajuda ilegal de fora, além de adivinhação e pura sorte. 

Embora a maioria destes métodos possa trazer algum resultado se usado corretamente, e alguns poderem até levar ao sucesso considerável no curto prazo, desde que você não tenha problema com questões éticas e morais, é claro; em outros não há nenhuma garantia de que este sucesso seja duradouro, a menos que você possua capacidade mental acima da média. Portanto, não resta dúvida que nada melhor para lhe garantir um sucesso duradouro, do que aprender a analisar posições no tabuleiro.

Isto pode ser feito de várias maneiras. Se a situação é de natureza posicional (ou seja, não há realmente nada para calcular), existem várias ferramentas úteis para empregar. Se a posição é de natureza estratégica (o que significa que há algo para calcular, mas todos os objetivos são de longo prazo e as mudanças possam levar a uma posição que seja de natureza estática), existem outras ferramentas. E o mesmo vale para as posições mais técnicas, é claro. Para posições táticas, o mais eficaz e de forma mais consistente é o cálculo e o uso das ferramentas associadas com ele. As ferramentas a que me refiro podem ser definidas como: Idéias simples que irão ajudá-lo a focar nos aspectos mais importantes da posição.

Não é possível acreditar que nós podemos usar processos complicados para resolver posições complicadas - pelo menos não com qualquer sucesso consistente. Então jogue fora seu algoritmos de pensar em nove etapas e esqueça coisas como árvore de análise e afins. Todas as habilidades que você precisa para o cálculo de sucesso podem ser desenvolvidos usando alguns poucos princípios e dedicação.

Vejamos então a ideia central de cada técnica proposta por Jacob Aagaard, lembrando que os aspectos mais importantes de cálculo são a concentração e determinação. Eles são o motor e o combustível; as técnicas são apenas a bússola ou o mapa que guiam você nesse percurso.

Oito técnicas de Cálculo

movimentos candidatos
Esta é a arte de ver antes de pensar. Nós todos podemos perceber duas ou três idéias em qualquer posição nos primeiros três segundos. Mas não há garantia de que eles sejam os melhores movimentos. Se nós treinarmos essa procura por idéias adicionais por nós mesmos , iremos terminar com uma lista de movimentos interessantes, que fazem sentido analisar. Depois de ter compilado essas idéias, devemos fazer uma rápida verificação em cada uma delas. As idéias de uma linha são altamente suscetíveis de serem úteis em outra linha, e também irão ajudar a escolher uma ordem sensata para analisar.

visão combinacional
É muito raro que novas combinações sejam jogadas. Quase todas as combinações são com base em algum grau em padrões bem conhecidos. Para ser bom nos cálculos, você precisa gastar uma quantidade significativa de tempo resolvendo combinações.

profilaxia
Também conhecida como a atenção às idéias do adversário e contra-chances. Como os nossos adversários fazem cada movimento de resposta, seria insensato não incluir suas idéias em nosso pensamento. A capacidade de se concentrar sobre as intenções do nosso oponente, ofensivas ou defensivas, é essencial para o sucesso no xadrez. 

comparação
Comparando duas decisões semelhantes e trabalhando as diferenças, podem ser vital. Isso varia de uma situação simples, onde há vantagens óbvias para um movimento em detrimento de outro, às variações mais complexas, onde é necessário encontrar a ideia sutil que faz toda a diferença.

eliminação
Às vezes, é útil procurar o que está errado com um lance ampliando a visão e buscando o que tem de bom sobre ele. A técnica de eliminação é uma ferramenta decisiva para nós. Eu diria que é como se aqueles lances pobres que não descartamos imediatamente dos nossos pensamentos, tivessem uma tendência de aparecer no tabuleiro, prejudicando muitas vezes algumas belas partidas, e jogando por terra todo o nosso esforço até ali. Por esta razão, esta técnica é especialmente útil na defesa, embora não só nessa fase.

movimentos intermediários
Também conhecido como o inimigo mortal de suposições. Nós devemos ser bem treinados para enxergar a opção de jogar uma chave inglesa na roda dos nossos adversários. Especialmente porque é tão grande divertido vê-los acidentarem-se quando eles estão indo muito rápido! em poucas palavras, se pode complicar a posição do adversário, por que deveria tornar a vida dele mais fácil.

imaginação
O senso comum diz que você não pode treinar a imaginação e é tudo jogado sob a ótica da "capacidade natural". Apesar disso, asseguro-lhe que a aquisição de imaginação no xadrez é como adquirir qualquer outra habilidade. Treinamento funciona.

armadilhas
Construir armadilhas não chega a ser a melhor das estratégias. Não é possível tentar ler a mente de seu oponente e ver como você pode levá-lo a cometer um erro, e não deve funcionar muitas vezes, mas pode ser uma habilidade muito útil a que recorrer, quando tudo o mais falhar.


As técnicas aqui apresentadas, foram extraídas do livro GRANDMASTER PREPARATION CALCULATION de Jacob Aagaard. São 306 páginas que oferecem ao leitor o detalhamento destas técnicas e podem ajudar a melhorar o desempenho nos tabuleiros.

quarta-feira, 22 de julho de 2015


POST INAUGURAL - xadrez en passant e as nossas vidas



É certo desde tempos longínquos que em tempos de paz, a melhor forma de combater é usando o tabuleiro. Ninguém sabe exatamente quem, quando, nem como foi criado este jogo tão maravilhoso, que é o xadrez, mas é sabido que vem desde muito tempo cativando e causando admiração em todos que um dia descobriram o prazer de uma boa partida.

Eu, por exemplo, conheci este jogo ainda na minha infância. Tinha entre 10 e 11 anos, quando um amigo também da mesma idade, me apresentou ao tabuleiro e as peças. Em minhas lembranças trago comigo a curiosidade que me tomou ao imaginar as imensas possibilidades, pois cada peça possuía um movimento diferente. Aquilo foi desafiador e conquistou meu interesse imediatamente. Naquela ocasião, me foram apresentadas as peças, cada uma com seu movimento próprio e sua força, o que me fez despertar, mesmo que de forma inconsciente, para o espírito de equipe que aquele jogo exigia. Não era possível, utilizar-se por exemplo, da Rainha, com toda a sua majestosa imponência, e dominar assim o adversário. Seria inútil este confronto, pois o adversário, já mais conhecedor das sutilezas daquele jogo, sabia que a vitória era o prêmio para quem melhor combinasse suas forças. 

Passaram-se anos depois daquele momento, até que novamente tive a oportunidade de reencontrar aquele jogo que havia me fascinado. Naquele segundo momento, eu já um pouco mais maduro, com meus 14 anos, era estudante do curso técnico em eletrônica na Escola Técnica Federal da Paraíba- ETFPB. Ali, havia no espaço do Grêmio Estudantil, uma escolinha de xadrez, e eu não desperdicei aquela oportunidade de tentar desbravar o que havia por detrás daquele jogo tão especial. E foi a partir daí que comecei a levar o xadrez mais a sério. A conhecer um pouco das táticas e estratégias daquele jogo milenar. 

Um fato curioso desse período, é que minha sala de aula que possuía aproximadamente uns 35 alunos, haviam muito poucos que não haviam despertado o interesse por este jogo, talvez uns 5 ou 6. Devido a isso, nos horários de intervalo das aulas, não faltavam adversários interessados em compartilhar aqueles bons momentos diante de um companheiro e um tabuleiro de xadrez.

Pois bem, considero essa a minha época de ouro com o xadrez. Quando pude descobrir um pouco dos segredos guardados entre aquelas 64 casas. Nesse período, pude conhecer e admirar algumas pessoas, que marcaram a vida enxadrística da Paraíba e quiçá do Brasil. Dentre elas, aquelas que trago mais forte em minha lembrança, devido a proximidade no dia a dia, ou por ter presenciado ou tomado conhecimento de algum fato marcante, foram elas: Ivanilson Pereira, meu professor na escolinha de xadrez do Grêmio Estudantil da Escola Técnica Federal da Paraíba - ETFPB, atualmente persiste bastante atuante no xadrez, como jogador e algumas vezes como árbitro; Abdala Salomão, coordenou a seletiva para o Jogos Escolares Brasileiro - JEBS e foi meu técnico quando da minha classificação para aquele evento; Anchieta Antas Filho, meu parceiro nos JEBS e grande rival nos eventos estudantis no Estado, pois defendíamos bandeira diferentes. Eu pela ETFPB e ele pelo PIO X - Marista; Wagner e Douglas Torres, grandes amigos e rivais nos tabuleiros, que tenho o prazer de manter no meu circulo de amizades até os dias atuais; Renato Araújo, que tive a honra de enfrentar naquela Seletiva para os JEBS em 1988; Os gêmeos Jesus e Marinaldo Medeiros, meus antecessores na equipe da ETFPB e nos JEBS, quando conseguiram por  mais de uma vez, uma honrosa posição para a Paraíba (não recordo exatamente qual, mas não foi inferior ao 3º lugar); Os dois Franciscos, Cavalcanti e Noguweira, que assisti por várias vezes disputarem lance a lance as conquistas nos tabuleiros naquela época; O  saudoso Wandeilton, um eterno gozador nos tabuleiros, sempre brincalhão. de quem tive a honra de vencer uma única vez, no ano de 1989, na disputa dos Jogos da Amizade que aconteciam anualmente no Esporte Clube  Cabo Branco; Também não posso deixar de lembrar da Revista Jogo Aberto, distribuída gratuitamente com os amantes da Arte de Caíssa; O Clube de Xadrez Epistolar Brasileiro, com a célebre frase: "Leva o xadrez, traz o amigo", que cumpria com a sua proposta de levar o xadrez a todos os cantos, em tempos em nem imaginávamos a Internet; E ainda, naqueles anos, Karpov e Kasparov dividiam a atenção nas disputas do título mundial do xadrez. É que me veio a cabeça neste momento.

Finalizo este primeiro post com uma imensa saudade. E como se diz que recordar é viver, sinto-me revigorado, cheio de vida, por ter trazido a tona essas passagens, as quais compartilho com os amigos na esperança de também lhes proporcionar o mesmo prazer que pude encontrar dentro de mim.

Aqueles que também quiserem complementar este post, fiquem a vontade para lançar nos comentários, fatos que marcaram o xadrez naqueles anos em que as nossas maiores preocupações eram a inflação e a guerra fria.